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Precisamos falar sobre Inclusão

14 ● setembro ● 2018

  • Artigos Acadêmicos

Carolina Videira [1]
Cíntia de Alice Momesso[2]
Pâmela Carolina Martins Tezzele[3]

 

“Tenho direito de ser igual quando a diferença inferioriza.
Tenho direito de ser diferente quando a igualdade me descaracteriza”.

-Boa Ventura de Sousa Santos.

 

O conceito de “cidadania” (invenção da modernidade), a circulação e o acesso à informação, as pressões sociais, a luta dos representantes de diferentes segmentos marginalizados pela igualdade de direitos, dentre outros elementos, bem como o progresso científico — principalmente, advindo da medicina experimental, das ciências sociais e da psicologia — vêm ocasionando mudanças positivas e significativas nos âmbitos legal e institucional. A luta antimanicomial e a crítica ao assistencialismo, também são marcos dessa transformação que trouxe para o centro do debate as políticas de inclusão social e, consequentemente, de inclusão escolar.

 

Temos escutado, cada vez mais, o mundo falar sobre inclusão e essa palavra parece remeter, automaticamente, à inclusão de pessoas com deficiência, principalmente, quando pensamos em escola. Um fato um tanto curioso que temos podido observar por meio da etapa de “diagnóstico” do nosso trabalho nas escolas, é que essa palavra — tão importante em um mundo desigual e excludente como o nosso — vem sendo, tristemente, distorcida: aquele aluno é “inclusão”, diz-se. Incluir é verbo, é ação, é fazer algo em prol do outro. Inclusão é substantivo feminino que indica compreender, fazer parte, é integração absoluta. Inclusão não pode jamais indicar atributo pejorativo, rótulo, ou todos os avanços citados anteriormente serão esvaziados em seus fins.

 

Nós da Turma do Jiló, gostaríamos de propor a você, leitor, um exercício para ampliar esse entendimento: por que precisamos falar sobre inclusão?Quando falamos em inclusão, a quem nos referimos? O que entendemos por inclusão? Quais os nossos valores?

 

  • Incluir é utilizar todos os recursos materiais e humanos e transpor barreiras para que o outro, em qualquer situação adversa, seja parte de;
  • É dar/permitir que o outro, em situação de dificuldade, tenha voz e vez no seu grupo de referência;
  • É afeto e respeito;
  • É entender que a individualidade está sempre para o coletivo, assim como o coletivo está para a individualidade;
  • É lutar contra a segregação;
  • É dar oportunidade para que todos convivam com todos;
  • É respeitar e acolher o outro independente de crenças, etnia, opção afetiva, condição social, física, sensorial, intelectual ou psicológica;
  • É entender que incluir não é favor ou caridade, mas sim, respeito e engajamento rumo à implementação dos avanços sociais e políticos já conquistados no âmbito legal.

 

O que entendemos por inclusão escolar?

 

  • Entender, disseminar e agir em prol de fazer valer o direito adquirido do qual todas as pessoas dispõem: terem acesso, de modo igualitário, ao sistema de ensino;
  • Não tolerar e sim combater qualquer tipo de discriminação seja de gênero, etnia, religião, opção afetiva, classe social, condições físicas, sensoriais, intelectuais ou psicológicas;
  • Entender, disseminar e agir em prol, independente das diferenças individuais, do pertencimento do indivíduo ao coletivo, do compartilhar das mesmas experiências sociais, afetivas e de aprendizado com toda a comunidade escolar;
  • Entender, disseminar e agir em prol da importância do preparo das escolas (recursos humanos e materiais) para dar o suporte necessário para que as práticas pedagógicas e sociais no âmbito escolar sejam de fato inclusivas;
  • Entender que as práticas pedagógicas devem ser adaptadas às necessidades dos alunos em situação adversa, e não o contrário.

 

É preciso sim remediar prejuízos históricos e oportunizar o acesso à educação de segmentos marginalizados socialmente. É preciso lembrar que as mulheres ainda não alcançaram a igualdade de direitos no mercado de trabalho e nem, por incrível que pareça, o direito de ir e vir em segurança. A luta pela inclusão de pessoas com deficiência ou com necessidades educacionais especiais nas escolas, também está em processo porque há muito a conquistar; da mesma forma, em luta estão as minorias étnicas por representatividade política, cultural e por acesso a uma educação de qualidade. O respeito à escola laica, a importância da discussão sobre gênero no âmbito escolar, dentre outras (os) causas/temas/ lutas, são o que, de fato, precisamos entender e considerar com abertura e urgência para que um dia, em um mundo melhor, não sejam mais lutas, para que as pessoas simplesmente SEJAM na plenitude de suas existências.

 

O feminismo, portanto, ainda é uma luta porque as mulheres precisam clamar pela igualdade de direitos, só falamos em inclusão social porque há milhões de pessoas excluídas socialmente por diferentes razões, só falamos em inclusão escolar porque o sistema tradicional de ensino não está preparado para lidar com a adversidade e é excludente, só falamos em discussão de gênero porque ainda nos incomodamos com formas de amor ao invés de nos incomodarmos com todas as formas de ódio e preconceito propagadas.

 

Sendo assim, quando falamos de inclusão, estamos entendendo que é preciso olhar com empatia, sem negar as diferenças, afinal, as oportunidades deveriam ser as mesmas para todos. Aprender, trabalhar, amar quem quiser, ser o que quiser, vestir o que quiser, ter a essência acolhida, pertencer. Parece simples, não é mesmo? A mudança está em nós.

 

O mundo inteiro está de olho na diversidade e em suas vantagens. Lembrando que a própria natureza, com todas as cores, formas e espécies; as diferentes culturas; a música com todas as suas possibilidades e nuances, os nossos sentidos com toda a diversidade de sensações que podemos captar, nos ensinam, diariamente, que a beleza está nas diferenças, contrates e nas possibilidades.

 

Portanto, convidamos vocês a OLHAR com EMPATIA!

 

[1] Fisioterapeuta, Especialista em Inclusão e Gestão das Diferenças, Mestre em Neurologia e Fundadora da Turma do Jiló.
[2] Pedagoga, Psicóloga, Psicopedagoga, Coordenadora Pedagógica da ONG Turma do Jiló.
[3] Educadora Especial, Psicopedagoga, Doutora em Educação, Membro da Equipe Pedagógica da ONG Turma do Jiló

 

Fonte:https://medium.com/@turmadojilo/precisamos-falar-sobre-inclus%C3%A3o-9b493e6860a7