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Precisamos falar sobre Empatia

14 ● setembro ● 2018

  • Artigos Acadêmicos

Por Pâmela Martins Tezzele [1]

 

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

 

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

 

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

 

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

 

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

 

Bertolt Brecht

 

Em algum momento da minha formação, me lembro de termos trabalhado em aula, uma matéria jornalística instigante que tratava da relação entre guardas e detentos da prisão norte — americana de Guantánamo, localizada em Baía homônima, ao sul de Cuba, conhecida mundialmente por abrigar supostos terroristas e por ser um lugar de violação de direitos humanos, onde práticas de tortura eram comuns.

 

Parte da matéria em questão, explicava que as conversas entre presos e carcereiros, quando não eram proibidas, eram limitadas ao essencial para que não se criasse nenhum tipo de laço, proximidade ou identificação. Com o devido afastamento, características e preferências em comum, como por exemplo: torcer para o mesmo time de futebol, ter lido o mesmo livro, gostar de filmes de ação, preferir sorvete de chocolate, ser pai de menina, etc., não seriam percebidas, o que “facilitaria” subjugar, desumanizar.

 

Anos mais tarde, a BBC de Londres promoveu um encontro entre alguns ex-detentos dessa prisão e um de seus carcereiros. O trecho a seguir, é parte dos relatos dessa experiência: Brandon (ex — guarda) disse que quando conversou com Ruhal (ex-detento), ele percebeu que os dois tinham muitas coisas em comum, não era diferente de estar sentado em um bar conversando com um amigo sobre mulheres ou música — “ele perguntou uma vez ‘você gosta de ouvir Eminem e Dr Dre’? e começou a cantar rap, o que foi muito engraçado. E eu pensei: como pode alguém estar aqui fazendo as mesmas coisas que eu faço em casa?”.

 

Tanto o texto sobre as relações entre guardas e prisioneiros em Guantánamo, quanto a matéria sobre a experiência do reencontro promovido pela BBC, em aula, naquela ocasião, serviram de mote para o estudo de um conceito denominado “Desengajamento Moral”, cunhado pelo psicólogo contemporâneo, o canadense Albert Bandura, professor da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos e autor da Teoria Social Cognitiva.

 

O desengajamento moral[2], a grosso modo, é a capacidade de burlar regras, ter condutas repreensíveis, causar efeitos prejudiciais e infligir sofrimento ao próximo, sem se desestabilizar emocionalmente. São oito os mecanismos de desengajamento moral desenvolvidos por Bandura, dentre eles, interessa destacar a Desumanização[3] que se refere à retirada das pessoas de suas qualidades humanas ou quando se atribuem a elas qualidades bestiais.

 

Não é difícil encontrar na história da humanidade fatos trágicos que podem ser pensados por esse prisma, a exemplo: o holocausto, a escravidão, o genocídio indígena na América, os números de feminicídio em diferentes partes do mundo e, até mesmo, o próprio destino dado às pessoas com deficiência em algumas culturas.

 

Pensando na necessidade latente de nossa sociedade desigual, que compõe um mundo em conflito constante, onde as relações estão progressivamente mais impessoais e distantes, precisamos refletir: qual o sentimento/habilidade que se opõe à incapacidade de considerar o outro na sua totalidade? O que nos permite, de fato, nos colocarmos no lugar do outro? Vermos o outro?

 

Nós, da Turma do Jiló, entendemos que é a EMPATIA e que há urgência em falar sobre ela. Definida, segundo o dicionário Michaelis, como a habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa, compreender sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem. Qualquer ato de envolvimento emocional em relação a uma pessoa, a um grupo e a uma cultura. Capacidade de interpretar padrões não verbais de comunicação.

 

No trabalho que realizamos no âmbito educacional, não poderíamos deixar de considerar a importância da empatia nas relações humanas e nos valores que ela possibilita exercitar. Sendo assim, a equipe de profissionais da educação da Turma do Jiló, formada pelas professoras: Cíntia de Alice Momesso, Mônica Luzzi, Priscila Malanconi Aguilar e Pâmela Martins Tezzele, que ministram as Formações para Educação Inclusiva para professores e funcionários em escolas da rede pública de ensino, elaboraram uma “dinâmica de empatia”, trabalhada no primeiro Módulo do Curso de Formação de Professores, que teve o intuito de fazer os professores se colocarem no lugar dos alunos com deficiência, vivendo na “pele” situações que simularam diferentes limitações e enfrentamento de atividades. Após a experiência, questionamos: como vocês se sentiram fazendo essa atividade?, foi possível refletir sobre os alunos com deficiência de modo geral?, o exercício oportunizou pensar sobre a situação do aluno com deficiência, em relação às aulas?

 

Entendemos que a riqueza dos relatos dos professores e os desdobramentos reflexivos que essa experiência permitiu, merecem ser compartilhados com você, amigo leitor.

 

Disseram eles, terem sentido: dependência, aflição, impotência, angústia, agonia, confusão, desespero, dificuldade para entender, dificuldade de concentração, desconforto, desmotivação, dificuldade geral, falta de orientação espacial, tristeza, sensação desagradável, indiferença, frustração, deslocamento, analfabetismo, irritação, incompreensão, dificuldade com a leitura labial, impossibilidade de concentração, experiência terrível, confusão mental, ansiedade.

 

Uma professora relatou que quando dissemos que o tempo para finalizar a atividade havia terminado, ela sentiu-se frustrada por não ter terminado e imaginou o que os seus alunos devem sentir quando ela apaga a lousa, mesmo que alguns não tenham terminado de copiar. Ela disse que conseguiu sentir “na pele” o que poderia estar causando em seus alunos.

 

Outro destaque refere-se à atividade feita pelo grupo que chamamos de “típico”, isto é, que não apresentava, a priori, nenhuma limitação. Alguns professores acharam bastante difícil executar o que propusemos e admitiram falta de domínio e de vocabulário necessário para realizar a tarefa. Externaram que todos nós temos potencialidades e limitações e que a maneira de se trabalhar com isso, vai ser definidora de sucessos ou fracassos na trajetória escolar.

 

Pontuamos sobre o quão privilegiados somos, quando podemos usar todo nosso aparato sensorial no desempenho de atividades e vivências e que nem todos podem contar com isso, isto é, reforçamos que o aluno sempre deve sempre ser considerado na elaboração de uma atividade pedagógica.

 

Caetano Veloso disse em uma música, “o Haiti é aqui”, sensibilizado pela miséria que também nos assola e pela triste situação dos haitianos, por quem, mesmo longe geograficamente, ele sofria, se importava. A Empatia pode nos levar à Síria sem precisarmos estar em meio às bombas, pode nos dar a sensação de vazio, mesmo quando, de barriga cheia, vemos alguém que não comeu nos observando pelo vidro do restaurante, pode nos fazer sentir a solidão de quem sofre bullying, pode nos fazer sentir a dureza de dormir no chão, de não ter um teto, pode nos fazer sentir a angústia de ter uma deficiência e não ter oportunidades e recursos.

 

Contudo, queremos ressaltar nossa esperança de que um dia a empatia prevalecerá sobre o medo, sobre o menosprezo do outro, sobre a insegurança, sobre o preconceito e lembrar que a empatia também nos provoca a agir em prol de pessoas, de causas, nos tira da zona de conforto, nos mobiliza a buscar conhecimento, a desmistificar tabus, nos move, ultrapassa o plano do sentimento, nos “incomoda” a agir e conhecer. Não precisamos esperar viver na pele, no sentido literal, o que o outro vive, basta que sejamos empáticos.

 

Referências:

 

AZZI, Roberta Gurgel. Desengajamento moral na perspectiva da teoria social cognitiva. Psicol. cienc. prof. vol.31 no.2 Brasília 2011 Acessado em 20 de abril de 2018 em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932011000200002

 

Dicionário on-line: http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/empatia/

 

Matéria acessada em 20 de abril de 2018https://oglobo.globo.com/mundo/ex-guarda-reencontra-ex-detentos-de-guantanamo-apos-contato-pelo-facebook-3069701

 

[1] Educadora Especial, Psicopedagoga, Doutora em Educação, Membro da Equipe Pedagógica da ONG Turma do Jiló.
[2] Para maior aprofundamento consultar os postulados de Albert Bandura e/ou as pesquisas coordenadas pela professora Roberta Gurgel Azzi (Unicamp), estudiosa da Teoria Social Cognitiva.
[3] Azzi com base em Iglesias, F. 2008, p. 171 Desengajamento moral. In A. Bandura, R. G. Azzi, & S. Polydoro (Org.), Teoria social cognitiva: conceitos básicos (pp. 165–176). Porto Alegre: Artes Médicas.

 

Fonte:https://medium.com/@turmadojilo/precisamos-falar-sobre-empatia-2eaec6e5bb32