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Precisamos falar sobre a Educação do Amanhã

14 ● setembro ● 2018

  • Artigos Acadêmicos

Carolina Ramos Resende Videira[1]
Pâmela Martins Tezzele[2]

 

O Brasil vive um ano singular. Em meio a escândalos políticos, prisões, greves, manifestações e eleições à vista, a Copa do Mundo de Futebol aparece como um dos assuntos mais comentados. É um quadro preocupante que remete a mais antiga estratégia de alienação: “pão e circo”. Estaríamos nós em meio a uma crise profunda de valores e prioridades? Como pensar a educação nesse contexto de retrocessos?

 

Adorno (1995), em seu texto “Educação após Auschwitz”, disserta sobre o que seria se tivéssemos novamente uma educação que não valorizasse o diferente e que não respeitasse as singularidades individuais, estaríamos plantando a semente de um novo holocausto? A Teoria Crítica, corrente de pensamento que tem Adorno dentre os principais teóricos, propõe que os fatos sociais devem ser analisados em uma perspectiva dialética, isto é, ao pensar no processo civilizatório humano, é preciso admitir o seu contrário, que é também anticivilizatório. Pensar a educação nesta perspectiva nada romântica, é admitir que, sendo ela a principal ferramenta de transmissão de valores, de conhecimento humano historicamente acumulado, de emancipação e formação crítica, ela pode ser, também, ferramenta de disseminação de preconceitos, âmbito de barbárie, de negação de identidade e de instituição de padronização. Diante de um cenário político no qual não se escuta nenhuma proposta inovadora sobre a educação de nossos jovens e crianças e onde figuras, no mínimo, controversas recebem atenção até de ministros e se atrevem a dar pitacos sobre um universo educacional, de tamanha complexidade, e sem nenhum conhecimento de causa, nós, da Turma do Jiló, propomos a seguinte reflexão: para que devemos direcionar toda a nossa capacidade crítica?

 

Não é raro escutar pessoas de diferentes segmentos, políticos, diretores escolares, familiares, dizendo que educaram bem os seus filhos e que não “correm o risco” de eles serem, por exemplo, gays e que a pressão de grupos ativistas em prol direitos humanos e das causas das minorias “não vai dar em nada”. Como você, amigo leitor, interpretaria este tip de posicionamento: “mau caratismo”? falta de informação? Ideologia? Manifestações recorrentes contrárias aos negros, às cotas raciais de acesso ao ensino superior, comentários racistas e extremistas, atitudes lamentáveis — antes até mais veladas — agora explícitas nas redes sociais. Será mesmo que essas pessoas não aceitariam serem atendidas por um médico cotista? Ou ainda, se fossem médicos, não aceitariam atender quem, por questões políticas, étnicas, de preferência afetiva e etc. “diverge” das suas expectativas? Parece mentira, mas sabemos que isso aconteceu. Quando usam o argumento do mérito, será que realmente ignoram os prejuízos históricos de um país que até “ontem” foi escravagista? Não seria corroborar com injustiças históricas, como as diferenças salariais e de direitos das mulheres no mercado de trabalho, quando achamos “exagerado”, ou “infundado” o movimento feminista? Quando fechamos os olhos para a luta por inclusão social e escolar, será que não engrossamos o caldo dos que têm pensamentos “medievais”, tais como: que os deficientes são tragédias e que devem ser banidos da sociedade?

 

Se como diz Adorno (1995), desbarbarizar tornou-se a questão mais urgente da educação hoje em dia e superar a barbárie é decisiva para a sobrevivência da humanidade, como prever uma educação inclusiva e livre de preconceito e sem bullying se o que se tem é uma realidade na qual as disparidades sociais se agravaram diariamente?

 

O contexto educacional do Brasil revela jovens e crianças acuados, deprimidos, sem voz. A figura do agressor aponta para uma total ausência de afetividade pelo outro. Está posto, portanto, um cenário misógino, machista, que revela o que de pior pode haver num ser humano: a ausência de empatia. Alteridade, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro, também em extinção. Então, pensemos: como as escolas conseguiriam sobreviver diante de uma liderança que prevê o aniquilamento de parte da população através da invisibilidade, se os excluídos lutam por visibilidade e inclusão? E mais, que espaço teriam, numa sociedade com um governante com ideias explicitamente fascistas, os ideais da educação: emancipar, libertar e formar cidadãos críticos e reflexivos? Adorno (1995) alerta que uma educação massificadora, numa sociedade que se integra progressivamente por meio do compartilhar de uma unidade cultural, é a mesma que nega a subjetividade dos indivíduos.

 

No texto “Duas formas de violência escolar: bullying e preconceito”, os autores Antunes e Zuin (2008), indicam que as vítimas do bullying “são pessoas que têm características físicas, socioeconômicas, étnica e preferência sexual específicas, entre eles, ciganos, artistas de circo, estrangeiros, alunos obesos, de baixa estatura, homossexuais” (p. 43), além, é claro, de alunos com deficiência física, sensorial e intelectual. Se o preconceito tem como base a marginalização, a segregação e a discriminação e a escola é âmbito de propagação, não se pode deixar de rever, constantemente, os planos educacionais de um futuro governo, afinal, os movimentos de luta por inclusão social ainda existem porque muitas pessoas ainda se encontram marginalizadas e excluídas socialmente.

 

Pensemos: qual a relação do cenário político atual com a educação? Não vemos nenhuma matéria publicada que indique intenções de mudança na educação. O que vemos é um total desconhecimento de questões sérias e enraizadas nas escolas, como por exemplo, a da violência escolar. Não enxergamos atitudes que indiquem avanços, mas, vetos que levam a um enorme retrocesso, como a proposta de eliminação de importantes disciplinas do currículo obrigatório do ensino médio, o corte de investimentos e a proibição do debate sobre educação sexual e de gênero, este último, confundido com a erotização de crianças e voltando, ingnorantemente, a ser tabu. Matérias[3] recorrentes tem enaltecido que as escolas militares são exemplo de excelência, mas quais critérios foram considerados? Nesse ambiente, como são tratados os gays? Será que não existe nesse tipo de escola racismo, machismo, bullying ou outras formas de subjugar o outro? Estariam considerando apenas o índice de aprovação no ENEM?

 

Do texto “Inclusão e discriminação na educação social” (2013) de Crochik e Kohatsu, destaca-se um trecho profético, caso não tenhamos uma mudança nas políticas públicas, eles explicam que a marginalização ocorre como forma de estratégia de limitar poderes políticos a certos grupos e de impedi-los de incorporar plenamente a cultura, isto, segundo eles tem como intuito dificultar a inclusão social destes grupos e acaba por restringir a participação ativa na tomada de decisões e no que tange ao consumo em quantidade e qualidade dos bens necessários para uma vida digna.

 

As referências que serviram de base para a elaboração desse texto, muito têm a acrescentar no que tange às discussões sobre o preconceito e bullying, pois atentam para a necessidade de afeto e empatia e ressaltam a importância da cultura na formação do indivíduo. Sem acesso à diversidade cultural do país, como o aluno, por exemplo, vai aceitar/conhecer o que lhe é diferente?

 

Adorno (1995,) atenta: “quando falo de educação após Auschwitz, refiro-me a duas questões: primeiro, à educação infantil, sobretudo na primeira infância; e, além disto, ao esclarecimento geral, que produz um clima intelectual, cultural e social que não permite tal repetição; portanto, um clima em que os motivos que conduziram ao horror tornem-se de algum modo conscientes” (sem página). Entende-se que ele se refere ao todos os mecanismos de desengajamento moral que permitem instaurar a barbárie e da necessidade de a educação ser ferramenta, desde a tenra idade, de disseminação de valores humanos, sociais, culturais e antibarbárie.

 

Consonante à visão crítica de Adorno em relação ao poder progressivo e regressivo da educação sobre os indivíduos, está o pensamento de Enguita (1989), que nos alerta para o fato de que as escolas existem desde antes do fenômeno da indústria e do capitalismo, mas a necessidade de mão de obra específica oriundas destes processos, foram a mais poderosa influência das mudanças estruturais e ideológicas ocorridas na escola. Ele cita a fundação de escolas para negros, explicando que reformadores brancos selecionavam “negros de alma branca”, dispostos a converterem-se em líderes educacionais perante seu povo, o intuito desta educação era a preparação para a futura ocupação para a qual os brancos os destinavam: trabalho industrial menos qualificado, mais mal pago e pesado, sem que interferissem nas questões políticas.

 

Contudo, podemos concluir que a educação é uma arma poderosa, para o bem ou para o mal, sobre a qual, assustadoramente, os “plantonistas” políticos exercem total controle sobre seus fins e meios, enquanto durar os seus expedientes. Esse texto objetivou desconstruir a visão romântica de que a educação é sempre libertadora e para alertar sobre a necessidade de usar seu poder de formação, de geração a geração, para semear a semente do acolhimento à diversidade e da empatia, poderosas ferramentas antibarbárie.

 

Referências

 

ADORNO, T.W. Educação após Auschwitz . In: ______________ Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. P. 119–138.

 

ADORNO T.W. A educação contra a barbárie. In: : ______________ Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. P.155–168.

 

ANTUNES, D; ZUIN A. Acessado em 15 de maio de 2018. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-71822008000100004&script=sci_abstract&tlng=pt

 

CROCHIK, J. L.; KOHATSU, L.N.; Dias, M.A.de L. ; Freller, C.C.; & Casco, R. Preconceito e educação inclusiva. In: ____________ Inclusão e discriminação na educação escolar. Campinas: Editora Alínea, 2013. P.9–40.

 

CROCHÍCK, J.L. E CROCHICK, N. Duas formas de violência escolar: bullying e preconceito. In: __________ Bullying, preconceito: uma nova perspectiva, 2017. P.13–50.

 

ENGUITA, M. F. (1989) A face oculta da escola. Porto Alegre, Artes Médicas, cap. 4 Do lar à fábrica passando pela sala de aula: a gênese da escola de massa (pp. 105 a 131)

 

[1] Fisioterapeuta, Mestre em Neurociência, Especialista em Gestão das Diferenças e Práticas Inclusivas, Presidente da Turma do Jiló
[2] Educadora Especial, Psicopedagoga, Doutora em Educação, Membro da Equipe Pedagógica da ONG Turma do Jiló
[3]https://istoe.com.br/243465_A+FORMULA+DOS+COLEGIOS+MILITARES/

 

https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/militares-se-destacam-no-ensino-estao-no-topo-do-ranking-do-ideb-6177638.

 

Fonte: https://medium.com/@turmadojilo/precisamos-falar-sobre-a-educa%C3%A7%C3%A3o-do-amanh%C3%A3-407ce0ade1a7